Crianças devem aprender a lidar com frustação

          A americana Pamela Druckerman, que tem três filhos e vive em Paris, é autora do livro Crianças Francesas Dia a Dia. Ela também escreveu Crianças Francesas Não Fazem Manha, fruto da observação de como os pais franceses agem na educação dos filhos. Pamela fala sobre as diferenças entre a educação francesa, a americana e a brasileira, já que também viveu em São Paulo, em 2001. Veja a entrevista concedida por e-mail para o Jornal Zero Hora:

De que forma os pais franceses estabelecem limites e regras para seus filhos sem criar um ambiente hostil em casa?

Pais franceses acreditam que se uma criança pensa que tudo é negociável, ele irá transformar a própria vida e da família em algo miserável. Eles pensam que aprender a lidar com a frustração é uma habilidade importante para as crianças. Pais franceses passam muito tempo explicando as regras, mesmo para crianças pequenas. O incrível é que mesmo bebês que ainda não sabem falar parecem entender as regras. Falar calmamente e de forma respeitosa parece ser o truque. É um misto de limite e amor.

Você viveu no Brasil em 2001. Você achou o comportamento das mães brasileiras mais parecido com o das francesas ou das americanas? Em que aspectos as mães brasileiras falham na educação de seus filhos?

Desde que "Crianças Francesas Não Fazem Manha" foi publicado, muitas mães do Brasil me disseram que o comportamento dos pais americanos é semelhante ao dos brasileiros. Nos dois lugares, a norma é "parentalidade intensiva", ou seja, é tudo pelas crianças o tempo todo. Se você não age assim, se sente culpado. Eu acredito que, em ambos países, os pais estão começando a se questionar se todo esse esforço é bom até mesmo para as crianças. Pais franceses não são perfeitos, nem as crianças francesas. Mas aqui existe uma espécie de contraponto a esse tipo de comportamento. O ideal da mãe francesa é balancear as atividades para que nenhuma parte da vida — trabalho, casamento ou maternidade — se sobreponha à outra. Elas (as mães francesas) acreditam que, nos primeiros meses de vida do bebê, a mãe deve se dedicar inteiramente a ele. Depois disso, a criança pode começar a se adequar ao ritmo do restante da família.

Você afirma que as brasileiras cuidam do corpo, mas não são escravas de um padrão de beleza. Já as francesas seguem à risca um modelo restrito e pré-definido — sempre magras e bem vestidas. Isto não seria um mau exemplo para as crianças? Como as mães francesas ensinam seus filhos a lidar com a autoestima ?

Eu acredito que ensinar as crianças a ter autoestima é um desafio em qualquer lugar do mundo. As francesas acreditam que as crianças não desenvolvem sua autoestima ao serem constantemente elogiadas pelos outros, mas, sim, ao aprenderem a fazer as coisas sozinhas, a serem independentes. Sendo assim, os pais tendem a dar mais autonomia aos filhos desde cedo. Crianças na França aprendem a cozinhar seu primeiro bolo quando tem apenas quatro anos, por exemplo. Eu provei alguns deles, e são deliciosos.

Você afirma que as mães francesas são mais livres, ou seja, não se dedicam 24h por dia aos filhos, não preparam cardápios especiais para os pequenos e não enchem o tempo deles com diversas atividades. Qual o segredo para educarem os filhos assim, sem culpa?

Tanto as mães francesas quanto as americanas acreditam que seus filhos precisam de muita atenção e amor. Ambas acreditam ser importante estimular os filhos por meio da música, da leitura. Mas as francesas também acreditam que as crianças devem aprender a lidar com o tédio e com a frustração. Elas consideram este um aspecto crucial para prepará-los para a vida. Um recente estudo em neurociências apontou que inventar brincadeiras ensina as crianças a ser persistentes, a ter mais atenção e confiança e a resolver problemas de forma criativa. As mães francesas não estão livres da culpa (por não estar o tempo todo ao lado do filho), mas acreditam que, se o filho pensa que a vida da mãe gira em torno dele, e que está sacrificando tudo por ele, a criança sentirá muita pressão.

Na prática, você pode citar quatro princípios na educação das mães francesas que podem ajudar as crianças a terem uma educação equilibrada?

Em primeiro lugar, como se portar na hora das refeições — que são notoriamente estressantes. As mães francesas dizem para as crianças : "Você não precisa comer tudo, mas você tem de provar". Elas servem legumes em primeiro lugar, antes da carne ou da massa, quando crianças estão famintas e mais propensos a comê-los. Além disso, algumas regras podem tornar a vida com as crianças um pouco mais calmas. Quando uma criança interrompe uma conversa na França, seus pais lhe alertam educadamente: "Eu estou conversando com alguém, vou estar com você em um minuto". Esse respeito deve ser mútuo. Quando uma criança está brincando feliz, seus pais tentam não interrompê-lo. Isso requer prática, em ambos os lados. E, finalmente, os pais franceses insistem, mesmo para as crianças pequenas, que sempre digam "olá " e " adeus". Eles acreditam que o simples ato de saudar pessoas ajuda a criança a perceber que os outros têm necessidades e sentimentos. Há muitos " bonjours" na França.

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