Hiperatividade infantil na visão da medicina antroposófica

     Muito se tem publicado a respeito da hiperatividade, da falta de concentração e outros transtornos de aprendizagem. O objetivo do presente artigo é trazer mais uma visão desta questão sem a pretensão de esgotar o assunto, mas sim acrescentar o ponto de vista do autor embasado na Antroposofia.

     A medicina antroposófica sabe que o homem tem doze sentidos e não somente audição, visão, tato, olfato e paladar. Entretanto, no âmbito deste artigo só nos cabe abordar os que atuam mais significativamente no distúrbio hipercinético, quais sejam: sentido do tato, sentido vital, sentido do movimento e sentido do equilíbrio. Uma criança com deficiência no tato irá desenvolver, dentre outros, distúrbios decorrentes da pouca percepção dos limites do seu corpo, pois é graças ao tato que entramos em contato com nossa corporalidade.

     Deficiências no sentido vital acarretam, dentre outros distúrbios, comprometimento na sensação de bem estar. A criança sente que algo indefinido a incomoda. A exposição a ritmos e hábitos não naturais acarreta prejuízos físicos e psicológicos à criança. Deficiência no sentido do movimento acarreta, dentre outros distúrbios, uma deficiência na percepção dos pró-prios movimentos. Deficiência no sentido do equilíbrio leva, dentre outros distúrbios, a uma dificuldade de se manter em uma direção.

     Graças a esse conhecimento a medicina antroposófica consegue trabalhar com a criança desenvolvendo exercícios específicos, aparentemente sem ligação direta com a problemática em questão, mas que são as bases para o tratamento dos sintomas da hiperatividade, da desatenção e do déficit de aprendizado. A criança deve ter todos esses sentidos desenvolvidos através de suas atividades cotidianas em ambientes adequados à idade. Essa vivência corporal, seja no tato, no aconchego, nos movimentos ou no equilíbrio, irá proporcionar comportamento saudável e seguro. A vivência em ambientes cheios de estímulos sensoriais, visuais e auditivos dissociados da participação da consciência corporal, acarretará às crianças desconexão entre os sistemas nervoso e motor.

     O ser humano adulto é, comumente, mais ativo no pensar e menos nos movimentos. Nas crianças a vivência oposta é que deve ser proporcionada pelos seus responsáveis. O excesso de imagens e a escassez de movimentos corporais, como por exemplo ao assistir TV ou jogando vídeo game, criam uma dissociação que mais tarde levará a um automatismo nos movimentos, ou no sentimentos ou ainda nos pensamentos. Os músculos passam a trabalhar separadamente do pensar, o sentir passa a atuar separadamente da ação e o pensar fica independente do foco da atenção. Em resumo, a hiperatividade no movimento é causada pela dissociação entre um estímulo e a não ação, que posteriormente transforma-se no efeito contrário, ou seja, num agir sem que exista um estímulo causal.

     Isto também acontece no âmbito do pensar hiperativo quando, por exemplo, estamos ouvindo um conteúdo mas não conseguimos permanecer atentos e mesmo escutando bem as palavras não acompanhamos seu sentido. Além das excessivas impressões visuais e auditivas do mundo mecanizado, temos que salientar uma outra característica bem própria da atualidade. Graças à tecnologia as máquinas e aparelhos conseguem velocidades que a alma humana não acompanha, mas os órgãos sensoriais registram no corpo de forma inconsciente. Essa qualidade é utilizada, por exemplo, nos comerciais e desenhos infantis a fim de estimular o consumo de determinados produtos. O corpo admite, sem grandes prejuízos, até uma certa velocidade alem do seu ritmo natural. Todo o universo é constituído de sábias velocidades e de ritmos. A respiração tem ritmo e polaridade (inspiração e expiração); o ritmo cardíaco (sístole e diástole); o dia e a noite; a vida e a morte, etc. Na perda ou prejuízo desses ritmos e polaridades, tornamo-nos inconscientemente pessoas agitadas, desatentas e, com o passar do tempo, improdutivas. É importante ressaltar que a hiperatividade infantil, na intensidade com que se apresenta em nossos dias, não acontecia há poucas décadas atrás quando a televisão, o vídeo game e o computador não eram tão presentes no cotidiano das pessoas, bem como os estímulos visuais e sonoros nas ruas e locais públicos também não existiam da forma exagerada de hoje. 

     Para o tratamento dessas crianças, vítimas do mundo moderno, a Antroposofia desenvolveu várias terapias, que vão desde medicamentos dinamizados, até exercícios que promovem o desenvolvimento dos sentidos não corretamente desenvolvidos. 

     Nas escolas de orientação antroposófica (Pedagogia Waldorf) o currículo é organizado de forma a contemplar o pleno desenvolvimento dos doze sentidos através de uma prática pedagógica que propicia às crianças espaços e vivências lúdicas, naturais e artísticas sem utilização de aparelhos eletrônicos e outros meios artificiais.

     Para finalizar gostaríamos de salientar que as crianças assimilam intensamente o ambiente ao seu redor e manifestam esse “aprendizado” através do seu agir na vida.

 

José Eduardo Ferraz

(médico especializado clínica geral antroposófica)

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